05/07/2015

Bunt, Uma Autobiografia – Parte 4

Postado por: Mariana Castro | Categoria: itpeople

Necessidades básicas: o ritual do banheiro. Nesta hora, subo em minha caixa de areia e cavo um buraco no meio, da mesma forma que muitos gatos fazem. Minhas patas se enterram e cavam e cavam e cavam espalhando areia por todo o chão até atingir o fundo da caixa, quando então cavo mais ainda, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Em uma certa hora, eu me viro 180o e começo a cavar outro buraco do outro lado da caixa, cobrindo o primeiro buraco durante o processo e espalhando mais areia pelo chão da cozinha. Tudo isto com pleno foco e concentração! Neste outro buraco, me esforço para tentar cavar um pouco mais fundo que o fundo da caixa. Viro-me e cavo, viro-me e cavo, viro-me e cavo por cerca de uns 10 minutos, shac, shac, shac, shac, shac, shac, shac… Que os anjos ajudem minha mãe se ela estiver tentando dormir em qualquer lugar da casa! Enquanto cavo, meu corpo começa a se contrair. Na hora do “vamos ver” me posiciono bem no centro do buraco e adoto a pose típica de um gato ao defecar: corpo retesado, rabo em pé, pernas posteriores flexionadas e abertas, olhar perdido no horizonte e orelhas baixas e viradas para trás em perfeita concentração. Nesta hora o mundo pára e tudo se resume à minha força para que o cocô saia. Muitas vezes fora da caixa. Ugh…

 

A partir disso, minha mãe, como qualquer pessoa completamente fora de sua sanidade mental, decidiu me ensinar a usar a privada. Sim, meus senhores e senhoras, a privada! Ela pegou essa “fantástica” idéia na internet quando assistiu a um vídeo intitulado “Kitty Potty Training”. Que constrangimento… Ainda bem que sou bem esperta e saquei sua intenção de primeira. É claro que a coisa não fluiu 100%, mas tudo correu razoavelmente tranqüilo. O único grande problema é minha grande, enorme, exagerada, incontrolável e desproporcional compulsão de cavar, como qualquer outro gato. Desta forma, no início, cada uso da privada era precedido pela obrigação de cavar um buraco… na água… Com isso, eu invariavelmente molhava minhas patas dianteiras no processo. Neste quesito, não sou uma gata típica, pois nunca tive grandes aversões à água. Muito pelo contrário, geralmente quando minha mãe sai do banho e abre a porta do box do chuveiro, pulo para o chão molhado, pegando ainda os últimos respingos da chuveiro, apenas para beber água “fresquinha” que ainda escorre junto ao ralo.

 

Voltando… quando eu finalmente parecia estar satisfeita com o tanto que “cavei” na água, adotava a postura característica e fazia o que tinha que fazer. Em seguida, retomava o processo de cavar, desta vez com a intenção de cobrir minha obra. No início, isso resultava numa nojeira federal ao misturar a água suja em minhas patas. Felizmente esta finalização do processo foi consideravelmente melhorada em poucas semanas e, atualmente, eu apenas “cavo” o assento da privada sem maiores sujeiras, iniciando meu banho logo em seguida. Minha mãe ainda tem esperança que eu, com o processo terminado, aos poucos deixe de lado esse hábito tão arraigado para nós que é cavar. Ela enlouqueceu?…

 

Na época em que eu ainda estava tentando aprender essa lição ultrajante, minha mãe, na tentativa de evitar sujeiras pela casa, ao menor sinal de que ia iniciar meu processo, costumava ir até a privada para supervisionar meus atos. Que vergonha! Mas eu finjia não ligar. Na verdade, até me sentia um pouco estimulada com a presença dela… Ela parecia dizer algo do tipo: “Vejam como está aprendendo direitinho!”. Felizmente ela parou com isto e agora tenho minha privacidade respeitada.

 

Minha inteligência me permite fazer o que quero, do jeito que quero e na hora que quero. Só deixo mesmo de fazer o que quero do jeito que quero na hora que quero diante de um “Não!” bem bravo de minha mãe. Nessas horas é preciso dar o rabo a torcer. Não posso correr o risco de levar uma palmada à toa… Ela pode ser bem dura comigo quando faço alguma bobagem. Bobagem na opinião dela, diga-se de passagem. Como é que comer aquelas plantas lindas do vaso pode ser considerado bobagem?…

 

Para me entreter não é preciso muito. Adoro correr atrás de fitas ou barbantes. Isso me deixa elétrica! Como toda boa mãe babona, a minha já gastou rios de dinheiro comprando os mais variados apetrechos vendidos nos pet shops como “brinquedos de gato”. Puro desperdício. Ao me aproximar de um rato de pelúcia, por exemplo, verifico cuidadosamente do que se trata e, percebendo a fraude, viro-me indignada e não mais me aproximo dele. Quanto mais sofisticado, menos gosto. Meus brinquedos prediletos são os mais imprevisíveis: um pedaço de barbante puxado com rapidez, uma bolinha de papel amassado jogada no chão, uma caixa de papelão de supermercado vazia e sacos de papel barulhentos, onde eu possa entrar. Ah… …e tem também o OB. Adoro esse objeto humano. Basta tirar a proteção de plástico, desenrolar o barbante e atirar no chão. Minha diversão está garantida! Parece um camundongo anoréxico com rabo verde.

 

Pique-cola é minha brincadeira favorita e minha mãe aprendeu bem como brincar disso comigo. Primeiro ela entra na sala, correndo atrás de mim com as mãos levantadas em forma de garra, grunindo e fingindo que é um monstro. Eu fico elétrica com isto! Ela representa bem seu papel e eu não resisto e trato de me esconder rapidamente. Que medo! Mas quando ela volta para o quarto, saio rapidamente de meu esconderijo e agarro as pernas dela, fazendo ela se desequilibrar. E a gente repete isto até cansar. É hilário! Mais divertido do que derrubar suas roupas quando entro no armário dela.

 

Mas tem vezes que eu quero me esconder de verdade, por exemplo, quando alguém de caráter duvidoso aparece em casa (eu não entendo por que essas pessoas precisam entrar aqui…). Nessas horas eu me sinto realmente mal e procuro sumir de vista o mais rápido possível. Uma vez, quando ela chamou um encanador, cheguei a entrar no motor da geladeira, tamanho o meu pavor. Uma forma comum de eu me esconder rapidamente é me enfiar debaixo do edredom da cama dela. Minha mãe acha isso engraçadíssimo. Diz que eu pareço um avestruz com a cabeça enterrada no chão, já que eu fico explícita em um grande “caroço” protuberante no meio da cama arrumada. Não sei de onde ela tira tanta graça, já que eu estou claramente em um momento de puro terror… Ela já especulou bastante a origem de meu pavor de gente: trauma infantil, atavismo, reação pavloviana e outros motivos mais. Também já recorreu ao famoso pesquisador Lorenz (especialista no comportamento de animais), para tentar desvendar meu comportamento tão irracional. O que ela não entende é que nós, gatos, temos uma sensibilidade altíssima com o campo energético das pessoas. E se ela fosse um pouco mais esperta, usaria isso como uma forma de se precaver com certas pessoas. Mas é preciso ser condescendente com suas limitações humanas.

 

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